quinta-feira, 10 de março de 2016

Minha história com meu cabelo: Antes era ódio, hoje é redescoberta, aceitação e amor!!!

Olá encaracoladas e encaracolados! Nesse post de abertura vou contar resumidamente a minha relação com meu cabelo, em forma de retrospectiva, para que vocês entendam como tudo aconteceu comigo e a importância de hoje eu estar compartilhando minhas experiências, conhecimentos e ideias. Sei que muitas meninas e mulheres irão se identificar e tantas outras poderão, através das minhas exposições, perceber toda a opressão e desvalorização que era e ainda é atribuída aos cabelos crespos/cacheados na sociedade.

Bom...vamos começar!  A primeira lembrança que me vem à cabeça é dos tempos de escola. Infelizmente essa lembrança é ruim. Inúmeras vezes cheguei em casa, depois de um dia de aula, aos prantos. Sofri muito bullying na escola por causa do meu cabelo. Eu sempre estudei em escolas particulares e durante a minha infância eu era uma das únicas negras nas salas de aula. Lembro que meus coleguinhas diziam que eu tinha cabelo ruim, duro, zombavam e perguntavam o que eu estava fazendo naquela escola, pois não era lugar para mim.

Teve uma situação, que jamais me esqueci. Acho que foi quando eu tinha 6 anos de idade. Todos os alunos deveriam ser fotografados, pois as fotos seriam entregues aos pais, como presente de fim de ano. Quando chegou a minha vez, a professora tirou o laço do meu cabelo, e eu fiquei morrendo de vergonha. Eu não queria que ninguém, principalmente os meninos da classe, me vissem com o cabelo daquele jeito. Não satisfeita, a professora penteou o meu cabelo, seco! Como assim?! É isso mesmo, seco! Todos sabemos que fios cacheados/crespos quando penteados secos ganham volume. É uma característica do cabelo, que hoje é super valorizada, pois dá vida e personalidade às madeixas. Mas, naquela época era motivo de piada. Então, vocês imaginam o que aconteceu? Meu cabelo ficou super armado, enorme. E eu que já vinha sofrendo preconceito por causa do cabelo, nessa hora fui vítima de uma chacota sem tamanho. Os meninos pegavam nele, riam, diziam que parecia Bombril. Todos os alunos, meninos e meninas, começaram a me humilhar. Nem a professora, nem ninguém interviu. Essa situação serviu para mexer ainda mais com a minha autoestima.

Cheguei em casa me debulhando em lágrimas, questionando meus pais, questionando Deus. Eu falava: Deus por que eu sou assim? Por que meu cabelo é assim? O que eu fiz para merecer tanta humilhação? Por muito tempo achei que eu era o problema, que eu tinha “defeito”, por não ter nascido com o cabelo liso. E dessa forma fui explicitamente apresentada ao Racismo. E é na escola que ele geralmente nos é apresentado, pois é o local onde começamos a conviver em sociedade. Mas me lembro claramente dos meus pais em um trabalho árduo de conversa e muita paciência, para me fazer entender que eu não tinha “defeito”, que aquelas eram as minhas características e que eu era sim linda do meu jeitinho. Eu me recordo que eu chorava, e eles choravam comigo.


Hoje penso o quão difícil deve ter sido para eles também tudo isso. Ver a filha sofrer, passar por tanto constrangimento e preconceito tão novinha, tão criança, e ao mesmo tempo, ao tentar buscar referências que ajudassem a tirar aqueles pensamentos da minha cabeça, não encontrarem. Afinal, se ainda hoje é difícil encontrar referências de negros seja na TV, revista, propagandas e tantos outros lugares, imagina no início da década de 90, época em que tudo isso aconteceu. Era quase impossível, mas eles não desistiram. Me educaram com muito amor. E as minhas referências eram eles. Mesmo assim, eu já fazia escova para 'abaixar' meus cabelos e torná-los aceitáveis. E cresci com a idéia fixa de alisá-los, porque o bullying não parava, eu continuava a me sentir feia e para mim a única solução seria alisar os cabelos.

Foi então que depois de tanto insistir e vendo o quão triste eu estava com tudo isso, para me ver feliz, minha mãe me levou a um salão de cabeleireiro. Eu tinha 11 anos. Me vem à cabeça a minha imagem quando saí daquele salão. Eu estava tão feliz, aquilo parecia a solução dos meus problemas. Só que não! Mal sabia eu que aquele era o início de uma escravidão. Eu me tornei escrava das químicas que mudam a estrutura dos fios. De lá para cá foram 20 anos danificando meus cabelos, cheguei até a usar megahair. Coloquei químicas, desde relaxamentos, passando por escovas definitivas e progressivas. Eu não conseguia mais viver sem isso. Meu cabelo crescia 1 centímetro e eu já necessitava passar mais químicas, pois a raiz crescia e ele ficava “cheio”. Na minha cabeça essa era a única forma de estar bonita, socialmente aceita e principalmente, nunca mais passar nenhum constrangimento e nem sofrer preconceito por causa do meu cabelo. Eu olhava ao meu redor, brincava com bonecas que sempre eram loiras, de cabelos lisos e olhos azuis, assistia a TV, lia revistas, via propagandas publicitárias e rótulos de produtos para cabelos onde todas as mulheres tinham cabelo ou liso ou alisado, então intrinsecamente fui condicionada a achar que o “certo” era esse, que essa era a minha única opção. 

Foi quando em abril de 2015, após ir no salão que habitualmente eu frequentava, para que fosse feito relaxamento seguido de escova progressiva, percebi que meu cabelo estava sem vida, murcho, quebrado. Eu me olhei no espelho e comecei a perceber que aquela imagem refletida não era a minha verdadeira imagem. Eu comecei a me incomodar, a me perguntar o que eu estava fazendo com o meu cabelo e comigo. Eu me perguntava o porque de estar colocando tanta química no cabelo, mudando a minha identidade. Eu já não me reconhecia mais. Me lembrei da infância, do porque tudo isso começou em minha vida, pensei e decidi que não iria mais mudar a minha identidade. Eu optei por enfrentar tudo e todos para ser quem eu realmente sou. Assumir minhas raízes e deixar aflorar minha verdadeira beleza, a minha negritude. Foi então que entrei em transição capilar, sem nem saber direito o que era.

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