quinta-feira, 2 de junho de 2016

Colorismo: Branca demais para ser preta, Preta demais para ser branca



Crédito da foto: Geledés Instituto da Mulher Negra
Olá meus amores!
O assunto hoje é bem complexo e por esse motivo vou tentar passar o meu ponto de vista sobre ele. Ok? Então vamos lá...

Eu tenho certeza que muitos de vocês já passaram ou passam por situações parecidas com as que vou descrever aqui. Por muito tempo fui considerada pelas pessoas como sendo “parda”. Tenho os cabelos cacheados/crespos, mas o tom da minha pele não é tão escuro.

Eu mesma não sabia bem como me definir, pois como vocês sabem (e foi dito no primeiro post do meu blog acesse aqui), eu passei por um processo de “embranquecimento”. Alisava os cabelos, e como minha pele não é tão escura e meus traços são finos, até eu me considerava “parda”. E assim fui levando a vida, sem saber de fato minha verdadeira identidade. Todos me chamavam de morena, moreninha, mulata...E eu não via problema nisso.

Até que em abril de 2015, quando comecei a minha transição capilar, comecei a me olhar no espelho e não me reconhecer mais (o que também foi dito no primeiro post).
Comecei a olhar para meu cabelo natural e identificar ali a minha ancestralidade, minha negritude que por anos foi camuflada por mim intrinsecamente.

Foi aí que comecei a pesquisar, a entender essa questão e me engajar mais. E sim, me reconheci como mulher NEGRA.

Entretanto, muitas pessoas se voltaram para mim e indagavam: mas você nem é negra! E eu respondia: Oi? Como assim? Olha para mim, para meu cabelo, para meus pais e meus avós.
E então surgiu o questionamento: Sou negra o suficiente para ser alvo de piadas racistas, mas não negra o suficiente para lutar contra o racismo?

É nesse ponto do texto que chegamos à discussão acerca do colorismo, que se caracteriza pela hierarquização de tons de pele, fator determinante para o grau de discriminação que uma pessoa negra pode sofrer. 

Como afirma Neusa Santos em Tornar-se negro, é através desse entendimento e conceito de cor – em que branco e negro se localizam em cada um dos extremos dessa linha ininterrupta – que se internaliza que “quanto maior a brancura, maior as possibilidades de êxito e aceitação”. O mito da democracia racial então ganha o colorismo como aliado, fazendo-se agente da branquitude. 

Na outra ponta dessa linha estão os negros, com todas as características e fenótipos negróides. E quem está no meio disso recebe classificações intermediárias, termos racistas que promovem um embraquecimento daqueles que são condicionados a se declarar como “pardos”, “mestiços”, “morenos”.


Vamos voltar à origem de tudo. A mestiçagem começou com escravas negras sendo estupradas pelos seus senhores, gerando os “mulatos”. Isso faz parte de um processo histórico de subjulgação das pessoas negras.

Muitos que se autotitulam “mestiços” ou “mulatos” nunca pararam para entender a questão a fundo. E isso é algo que merece uma atenção mais aprofundada.

Vamos continuar a raciocinar...

Ao olhar hoje a sociedade, vocês conseguem perceber como o racismo é estrutural e multifacetado?
O racismo não se dá apenas através da injúria. Ele se dá também através de práticas excludentes, principalmente pela via cultural, social e estrutural. Ele é um sistema impregnado em toda a estrutura da sociedade e tem influência direta na forma como construímos a imagem das pessoas negras.

É um sistema de sobreposição de uma raça sobre outra, que vai garantir uma série de privilégios para pessoas brancas e vai negar outros para pessoas “de cor”. Essa imagem social da negritude e esses privilégios vão ter impacto na sociedade. As manifestações de racismo vão variar de acordo com a leitura social que você recebe. Com a aparência, cor de pele e a presença ou ausência desses traços.

O colorismo faz com que o racismo seja pigmentocrático, ou seja, vai variar conforme a melanina da sua pele. Quanto mais você tem, maior a sua chance de ser reconhecido como negro. Assim como a gente tem várias tonalidades de pele, a gente vai ter várias formas de manifestação do racismo. E essa pode ser a explicação para que eu tenha sofrido preconceito apenas por causa do meu cabelo, pois como sou considerada “negra de pele clara” e tenho os traços finos, enquanto eu alisava meus cabelos não sofri racismo. Apenas na infância (quando ainda tinha cabelo natural) e agora em transição (que estou voltando a usar o cabelo natural).

Por que? Por causa do colorismo. A quantidade de melanina na minha pele e a ausência ou presença de alguns traços e características influem nas manifestações de racismo que eu sofro. É por isso que temos que entender essas questões, buscar ter empatia. Eu, por exemplo, sei que uma mulher negra, com tom de pele escuro, traços negros mais marcantes, cabelo mais crespo, sofreu, sofre e sofrerá mais com o racismo do que eu. Isso é um fato, que não desmerece o que já passei, passo e vou passar. Isso não invalida todo o preconceito que foi manifestado a mim e nem enfraquece a minha luta no combate ao racismo. Mas me mostra que sim, existem diferentes manifestações de racismo e elas são muito baseadas no colorismo.

Detectaram o quanto nosso racismo é embranquecedor?! A sociedade vai encontrar toda forma de mecanismo para afastar a gente de uma ideia de negritude, porque a negritude é vista como ruim, como feia e como suja.

E então, para finalizar, como defino se eu sou ou não sou negra?

Leve em consideração sua origem, cor, traços, leitura social, situações que já vivenciou. Tudo isso pesa nesse processo de reconhecimento como uma pessoa negra. Tudo isso é importante, porque quando a gente reconhece a nossa negritude, a gente reconhece o racismo, a gente começa a entender um pouco mais como essas violências funcionam e ganha um pouco mais de ferramentas para combater isso e o combate ao racismo é bom para todo mundo, vai fazer a nossa sociedade melhor e mais igualitária. Vai trazer mudanças que vão melhorar a vida em comum.

A questão é de identidade própria. E eu decidi escolher essa identidade ao invés de “parda” ou “mestiça”, o que significa uma opção política minha.


Nenhum comentário

Postar um comentário